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A Biblioteca de Alexandria, a internet e a revolução eletrônica

A Biblioteca de Alexandria foi uma das maiores do mundo antigo e abrigou o sonho humano de concentrar em um mesmo lugar todo o conhecimento produzido na Terra. Todos os livros, pergaminhos e rolos juntos, em um processo de convergência da informação, num pólo da sabedoria. Nos primeiros anos depois de Cristo, os homens já alimentavam essa ambição que foi supostamente queimada durante um incêndio acidental.

O sonho da biblioteca universal exprimiu por muito tempo o desejo exasperado de capturar todos os textos já escritos e todo o saber constituído. Milênios se passaram e, aparentemente, o homem continua alimentando os mesmo sonhos. A internet e a comunicação através do ambiente digital são a Alexandria do século XXI. É nela que estão depositados os sonhos da humanidade pós-moderna. A revolução da textualidade eletrônica, no entanto, não se dá em moldes idênticos ao que aconteceu com a consolidação do papiro, do códex ou ainda da imprensa de Gutemberg. Embora, é claro, em diversos aspectos soe tão utópica e parecida com o ideal da Biblioteca de Alexandria.

No antigo Egito, Alexandria se propunha ser o centro do saber constituído humano. Por outro lado, em nenhum momento se preconizou o ideal de que esse conhecimento tivesse fins universais. Por muitos anos ainda, ler e escrever seriam exclusividades do clero, da aristocracia e de outras finas camadas sociais.

Na revolução eletrônica, o que se persegue não é só a convergência da informação, mas também sua disponibilização universal. O problema é que essa nova revolução em curso pode agravar e não reduzir desigualdades. Há o risco de um novo “Ilestrimo”, como afirma o professor Roger Chartier. Definido não pela incapacidade de ler ou escrever, mas, sim, pela impossibilidade de ascender às novas formas de transmissão do escrito.

Os livros eletrônicos permitem a hipertextualidade e a hiperleitura. A organização do escrito nos suportes digitais é não linear e não sequencial. Além disso, possibilita as relações entre som, imagem, texto e vídeo em um mesmo produto que já não mais pode ser entendido apenas como o escrito. Nesse mundo textual sem fronteiras, a noção mais importante é a de elo, que irá relacionar as diferentes unidades textuais.

As bibliotecas são marcadas e marcaram uma época de uma leitura silenciosa e solitária. Por anos, autores e seus leitores não mantiveram contato. Com a textualidade eletrônica, parece surgir um novo padrão de sociabilidade em torno da produção escrita. Um livro não se encerra nele mesmo. Através de comentários, citações, críticas e novas versões dentro do ambiente digital, os textos se tornaram mais infinitos. O autor convive hoje com constantes reapropriações de suas obras e com leitores que lhe fazem questionamentos através de e-mails, tweets e postagens em blogs.

Enquanto Alexandria convivia com o problema da escassez de informação e produtos escritos, hoje o que se apresenta é o quadro do excesso. Mais do que nunca, uma biblioteca precisa selecionar, classificar e hierarquizar o conhecimento. A proliferação pode tornar-se caos e abundância, um terrível obstáculo à sabedoria.

A evolução da técnica é muito mais rápida que a evolução dos costumes humanos. Ainda que, tenhamos atravessado inúmeras revoluções pela escrita, o sonho da reunião do conhecimento universal se mantém. E por diversas razões, continua parecendo utópico.

A hipótese do desaparecimento das bibliotecas físicas também é muito pouco razoável. O mais provável para os próximos anos e décadas é a coexistências dos dois suportes, o papel e o e-paper. A facilidade de coleta e armazenamento, no entanto, sugere que surgirão muito mais bibliotecas virtuais do que físicas. Enquanto não ocorre um incêndio como em Alexandria, nós continuaremos coletando, armazenando, compartilhando e vivenciando a experiência da textualidade eletrônica.

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